A misoginia que se transforma em feminicídio

Tulio Almeida S. Figueiredo

Psicólogo Clínico na Samec, Mestrando no PPGNEIM/UFBA e especialista em Saúde Mental (UniRuy)

No Brasil, o feminicídio é um problema sócio histórico grave e que possui dados alarmantes. Desde 2015, ano em que foi criada a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015), os casos estão aumentando de uma forma assustadora, já que foram registrados 1.568 casos de feminicídios, em 2025. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é o maior número nestes 10 últimos anos. Especialistas afirmam que, em parte, o crescimento deve-se ao aprimoramento da capacidade das instituições de identificarem e classificarem corretamente os casos de feminicídio. No entanto, por outro lado, para se compreender o que está por trás desses dados, existe um fenômeno que está crescendo nas redes sociais: que é a misoginia. Mas o que é misoginia?

Misoginia é o sentimento de ódio, desprezo ou repulsa às mulheres, que pode se manifestar em discursos, comportamentos e atitudes que desvalorizam e discriminam as mulheres, contribuindo para a violência doméstica e os feminicídios. A misoginia é um discurso antigo mas ganhou uma nova roupagem e se amplificou nas redes sociais, principalmente nos perfis dos chamados Red Pills. Esse movimento, dito de modo sucinto, defende que os homens devem ser dominantes e as mulheres, submissas. Segundo esse movimento, esses papeis sociais estereotipados deveriam ser aceitos como parte da natureza humana e que, portanto, não deveriam ser questionados.

No entanto, é necessário compreendermos as consequências desse discurso, principalmente sobre as crianças e adolescentes, que estão em formação e, muitas vezes, estão vulneráveis nas redes sociais a essa forma de pensar. Esse tipo de informação influencia sobre os homens uma percepção de que as mulheres são inferiores, menores, e que devem tolerar quaisquer comportamentos abusivos vindo de seu parceiro, o que justificaria, para muitos agressores, os seus atos de violência. Essa visão, tão propagada, infelizmente, produz adoecimentos psíquicos para as mulheres; e é também um combustível para a violência contra elas e também para os casos de feminicídio no Brasil e no mundo.

A Misoginia não é apenas opinião, mas um discurso violento que se propaga na sociedade e nas redes sociais. Frases misóginas como “ela apanhou porque mereceu”, é problemática porque culpabiliza a vítima que sofreu alguma violência, tirando o foco e a culpa do agressor. Outra frase bastante comum em nossa cultura é: “lugar de mulher é na cozinha”; essa frase é também problemática porque reduz a mulher a uma única função, que é: servir aos outros. Estas frases, entre outras, são aparentemente inocentes, mas estão presentes em nosso cotidiano, e podem alimentar várias formas de violências contra as mulheres. O feminicídio não se trata apenas de homicídio, mas de um crime motivado por desigualdade de gênero e misoginia. Falar sobre esse fenômeno com os jovens, nas escolas, é urgente para que possamos construir, no futuro, relacionamentos não violentos entre homens e mulheres. Afinal, os meninos de hoje serão os homens de amanhã.

REFERÊNCIAIS

VALADARES, Victor dos Santos; LOYOLA, Valeska Maria Zanello de. Vivências dos homens autores de violência contra as mulheres: uma perspectiva interseccional. Universidade de Brasília, 2026.

ZANELLO, V. Saúde Mental, Gênero e Dispositivo: Cultura e Processos de Subjetivação. 1. ed. Curitiba: Appris, 2018